A Taxonomia das Doenças: da Filosofia Clássica à Medicina de Precisão

Alfred Garrod, célebre por descobrir o papel do ácido úrico na gota — a chamada “doença dos reis” —, começou a notar um grupo de pacientes que apresentava um quadro semelhante ao reumatismo, mas com peculiaridades distintas. Não era a gota clássica: não acometia majoritariamente homens nobres e corpulentos, mas mulheres com uma evolução mais “astênica”.

Ao perceber esse fenótipo distinto dentro do amplo espectro do chamado “reumatismo”, Garrod propôs o nome “reumatoide” — ou seja, “parece com o reumatismo”, mas não é exatamente o mesmo. Assim nasceu um dos diagnósticos mais conhecidos e estudados da reumatologia.

Esse episódio ilustra, de forma paradigmática, a atenção perene e contínua que deve ter o médico diante dos sinais e sintomas. Desde os primórdios da medicina, o avanço do diagnóstico sempre se deu pela capacidade do clínico de observar, distinguir, classificar, hierarquizar e comunicar— não apenas de repetir fórmulas aprendidas, mas de perceber nuances, identificar padrões, estabelecer diferenças.


O médico não é – e não pode ser – um consumidor de dados, mas um profissional criativo e atento, pronto a corrigir dados antigos, gerar dados novos e trocar essas experiências, sempre tendo como premissa o paciente.

É justamente disso que se trata a taxonomia das doenças: a arte e a ciência de classificar os fenômenos mórbidos segundo uma hierarquia lógica, ordenada, que permita ao médico compreender, perceber e dialogar.

Essa prática — fundamental na medicina — está intimamente ligada a conceitos filosóficos clássicos que, infelizmente, muitos profissionais desconhecem. Refiro-me à Árvore de Porfírio, que hierarquiza os seres segundo níveis de gênero e espécie, e às Causas Aristotélicas, que explicam a constituição dos entes através de quatro dimensões: causa material, formal, eficiente e final.

Ao estudar e classificar doenças fazemos exatamente isso: perguntamos “o que é?”, “do que é feita?”, “como se manifesta?” e “qual seu curso?”.

Assim, a tão celebrada Medicina de Precisão, que hoje busca fenotipar as doenças a nível molecular e genético, não é, como muitos pensam, uma revolução. Ela é, antes, uma reprodução da epistemologia médica tal qual ensinada por Aristóteles que curiosamente era filho de médico e é considerado o pai do método científico. Nele a precisão transitava da espécie ao gênero e vice-versa — do particular ao universal. O fundamento do seu método era buscar a essência e unidade das coisas a partir da diversidade da realidade. 


A moderna medicina genômica apenas transportou o olhar clínico para camadas mais profundas da realidade biológica, sem, contudo, abolir a necessidade do raciocínio clínico tradicional que insiste na busca de unidade em meio à diversidade.

É por isso que considero ingênua a pretensão de alguns que juram que a Medicina de Precisão acabará por suplantar a Medicina Baseada em Evidências (MBE). Não porque uma seja melhor ou mais científica do que a outra, mas porque ambas são complementares e, de certa forma, inseparáveis.

A MBE se apoia na análise de grupos, em apanhados epidemiológicos-coletivos; em amostras — mas o que poucos percebem é que tais grupos são, em alguma medida, já fenotipados. Os critérios de inclusão e exclusão, as variáveis controladas, os desfechos analisados, tudo isso pressupõe uma taxonomia prévia, uma categorização fenotípica que torna possível a comparação e a generalização e que se sustenta, em última instância, no indivíduo.

Por outro lado, a Medicina de Precisão não é nada além de uma fenotipagem mais refinada, molecular, que busca subcategorias ainda mais específicas dentro dos grupos clássicos.

Ambas são métodos. E, como todo método, não podem ser valorados por si mesmos, mas apenas pela adequação ao fim a que se destinam. E qual é esse fim? O bem da pessoa concreta que está diante de nós — uma pessoa que não se dissolve em meio a amostragens populacionais, mas também não se reduz a um amontoado de células e moléculas.

Esse paciente concreto é mais do que um número na estatística e mais do que um perfil molecular: é uma pessoa, indivisível, de corpo e alma.

Por isso, insisto: a taxonomia das doenças é indispensável, mas deve sempre ser acompanhada do reconhecimento da singularidade do ser humano. O ideal médico não é apenas classificar corretamente a doença, mas subfenotipá-la com a maior precisão possível, enquanto se reconhece que o paciente é único e irrepetível.

Mais do que um “homo sapiens”, cada paciente é uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus — uma realidade ontológica que transcende qualquer taxonomia, por mais sofisticada que seja. Eis o fundamento ontológico que deve presidir a ciência médica.

É exatamente sobre esse tema que aprofundo a reflexão no meu próximo livro, A Filosofia por trás do Diagnóstico, a ser lançado em breve. Nele, exploro como as grandes tradições filosóficas podem iluminar a prática diagnóstica, ajudando-nos a superar a despersonalização imposta tanto por aqueles que reduzem o ser humano a um mero conjunto de processos biológicos, quanto por quem o enxerga apenas como partes de um teorema algébrico.

Conclusão: A Taxonomia como Ponte entre Ciência e Humanidade

Compreender a taxonomia das doenças e sua fundamentação filosófica permite ao médico integrar a precisão científica com a atenção à singularidade do paciente. Essa abordagem não apenas refina o diagnóstico, mas também amplia a capacidade de oferecer tratamentos personalizados, mesmo em cenários que desafiam as categorias diagnósticas tradicionais.

Este é o cerne da prática médica que defendemos no CORC. Formamos profissionais que vão além de seguir protocolos, capacitando-os a interpretar a complexidade dos fenótipos mórbidos e a aplicar o conhecimento científico de forma criativa, sempre centrada no paciente como um ser único.

A medicina do futuro continuará a avançar nessa direção, com ferramentas como a genômica e a proteômica permitindo uma caracterização cada vez mais detalhada das doenças. No entanto, o desafio do clínico permanece: combinar esses avanços com uma compreensão profunda dos mecanismos patogênicos e da individualidade do paciente.

Essa é a essência da Medicina de Precisão: não substituir a arte médica, mas enriquecê-la com uma compreensão mais profunda dos processos biológicos, sempre mantendo o foco na pessoa à nossa frente. É a taxonomia do indivíduo e da doença, unidas no amor à verdade.

Com estima,
Dr. Carlos Antonio Moura.