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Doença em Movimento: da Artropatia Lúpica à Reeducação Médica
Doenças são processos em desenvolvimento: por que o médico sábio não congela critérios.
A medicina, muitas vezes, se organiza ao redor de classificações estáticas, critérios diagnósticos fechados e fluxogramas de conduta. Embora úteis como ferramentas operacionais, essas estruturas podem induzir ao erro de encarar doenças como entidades imutáveis — quando, na realidade, elas são processos biológicos em movimento, moldados por fatores moleculares, ambientais e históricos que se entrelaçam até a manifestação clínica, radiológica, laboratorial e/ou histológica.
O médico sábio sabe que não basta memorizar o 'retrato' de uma doença: é preciso compreender sua biografia, o percurso de desenvolvimento desde alterações subcelulares até a expressão clínica e o impacto terapêutico.
Essa visão se torna ainda mais essencial na era da medicina de precisão, onde a compreensão dos fenótipos dinâmicos e sua relação com intervenções terapêuticas é chave para modificar o curso das enfermidades.
Artropatia lúpica: uma história de transformação conceitual.
Um exemplo emblemático desse pensamento aplicado à prática clínica é a trajetória de estudo e publicação sobre a artropatia lúpica que desenvolvemos ao longo do meu doutorado sob a orientação do Prof. Dr. Mittermayer, grande nome da reumatologia brasileira e um dos maiores especialistas em Artropatia de Jaccoud do mundo.
Por décadas, a artropatia associada ao Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) foi considerada uma manifestação inofensiva, caracterizada por dor e deformidade, mas não progressiva, não erosiva e sem maiores implicações funcionais.
Contudo, essa visão foi gradualmente desafiada pela literatura internacional e, mais recentemente, por nosso grupo de pesquisa, quando publiquei o artigo:
➡️ 'Lupus arthropathy: an evolving concept' (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37038257/)
Neste trabalho apresentamos uma síntese histórica e científica que demonstra como o domínio articular no lúpus passou por sucessivas atualizações até incorporar a possibilidade, antes impensável, de que ela pudesse cursar com erosões ósseas.
Na sequência, defendi minha tese de doutorado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37844912/) cujo foco foi o estudo aprofundado da artropatia de Jaccoud — forma deformante e com maior potencial de gravidade.
Assim, mais do que simplesmente gerar dados estatísticos, esses trabalhos propuseram uma revisão paradigmática: a necessidade de fenotipar a artropatia do lúpus, compreendê-la em sua heterogeneidade e, principalmente, admitir que ela pode evoluir de forma mais grave do que se pensava.
Da reumatologia à educação médica como um todo.
O valor desses trabalhos não está, portanto, na mera conclusão numérica, mas na provocação intelectual que carregam: a medicina não deve ser ensinada ou praticada como um conjunto de verdades cristalizadas, mas como a interpretação real de processos vivos e complexos, passíveis de novos conhecimentos e reconhecimentos.
Esse princípio é tão válido para qualquer campo do saber médico que a boa formação médica não é e nem pode ser limitada à memorização de critérios classificatórios, mas aquela que treina o futuro médico a reconhecer o movimento das patologias enquanto busca identificar aquilo que faz ela ser o que é.
Infelizmente, essa maneira de pensar encontra-se hoje praticamente apagada das cátedras médicas. Quando não totalmente substituída por uma carga horária sufocante de políticas de saúde e saúde coletiva – cujo propósito é claro –, encontra-se perdida em meio ao enfoque excessivamente evidencialista no qual decorar “graus de evidências”, números e atualizações de guidelines ocupam o quadro daqueles que são rotulados de “excessivamente técnicos”.
Enquanto autor desses artigos, não recomendo que médicos e estudantes se apeguem aos números ou às estatísticas específicas ali publicadas. Sem dúvida é prudente saber aplicar e analisar estes aspectos, mas não podemos nos ater umbilicalmente à evidência do paper! Ao contrário: minha recomendação é que captem a ideia central que subjaz a pergunta que norteia todo artigo; que identifiquem a experiência real que motivou o surgimento desta ou daquela pergunta.
Aprender a fazer isso é voltar a atenção não à originalidade deste ou daquele resultado, mas à originalidade da ideia. Eis o motivo pelo qual “simples Letters” costumam apontar para uma prática que merece ser ponderada.
Conclusão: da artropatia lúpica ao pensamento clínico mais profundo.
A medicina precisa ser ensinada e praticada como um ofício imaginativo, que reconhece as doenças como entidades em transformação e que prioriza a formação de princípios sólidos, e não apenas a aquisição superficial de 'últimas novidades' que logo tornar-se-ão obsoletas.
É isso que defendemos no CORC. Formamos profissionais que buscam interpretar a complexidade dos processos mórbidos aliando perspicácia, criatividade e rigor, sempre centrados na singularidade do paciente.
Tão importante quanto saber o que está escrito é compreender como foi escrito, por que foi escrito, se deve continuar irreparavelmente escrito e, por fim, se não é você o responsável por fazer um novo escrito!
Com estima,
Dr. Carlos Antonio Moura