Medicina e Humanismo: Verdade sufocada

Até o Cecil...

No dia 29 de abril de 2025 recebi uma mensagem de um dos alunos do CORC. O motivo do envio foi claro: “professor, eis aí o que o senhor sempre fala” e junto um print do capítulo 1 do Cecil.

Deste fato três coisas sobrevieram à mente: primeiro que minhas impressões são expressões de um dos maiores livros da clínica médica. Segundo, que o problema não é locorregional, mas certamente decorre de uma crise na educação ocidental; por fim, que nossos alunos estão despertando!

Testemunho com frequência uma ênfase dada na graduação de medicina ao humanismo, tornando a ciência médica, naturalmente classificada entre as ciências biológicas, uma ciência social. Não é incomum enquanto médico ver colegas profundamente empenhados em cumprimentar os pacientes e desejarem lhes parecer simpáticos tanto quanto um corretor de imóveis diante de um cliente. É recorrente lidar com acadêmicos e residentes de medicina que, estando demasiadamente empenhados nesta simpatia, misturam alhos com bugalhos.

“Curar raramente, aliviar frequentemente e confortar sempre”: frase menos entendida pelo cérebro do que pelo coração. As faculdades de medicina embandeiraram-na como slogan de tal forma que a ideia de que a função do médico é, acima de tudo, confortar o paciente, impregnou no subconsciente dos estudantes. Ora, num emaranhado neuronal emocionalmente hipertrofiado, é fácil confundir confortar com afago e, daí, basta um pulo para transformá-la em embuste.

Neste enovelado de axônios curtos-circuitos são comuns. As habilidades técnicas rapidamente queimam; o discurso de tocar o paciente, outrora embebido de uma noção de corpo e alma, reduz-se à discursos coletivistas; o ser que decidiu fazer medicina tem que sofrer uma mutação para o humanismo como se antes de ingressar na faculdade um orangotango fosse.

Não estou advogando que o médico deva ser anti-humano e isto não precisaria ser explicado se não vivêssemos em tempos cognitivos sombrios, mas faço questão de esclarecer.

Fontes para o despertar

Sem dúvida os fins não justificam os meios, mas eles também não exigem que os meios sejam floridos e requintados. De fato, maquiagens servem ou para realçar belezas ou para esconder defeitos. Ausência de ornamento não implica presença de feiúra. Todavia, a presença de enfeite frequentemente é subterfúgio da deficiência. Não por acaso “discursos apetecíveis” e “pesados currículos” compõem a atmosfera de charlatões. Gostemos ou não, generosidade e credenciais podem servir ao bem e ao mal.

Métodos educacionais tais como A Instrução Direta, a Aprendizagem para o Domínio e a Educação Baseada em Resultados — todos centrados em teorias de mudança comportamental e modelamento de valores — foram denunciados por Charlotte Thomson em A Idiotização Proposital da América, por John Taylor em Emburrecimento Programado e por Pascal Bernardin em Maquiável Pedagogo. Um panorama geral sobre este processo pode ser encontrado em meu livro O Despertar do tempo para a Eternidade, mais especificamente no capítulo 2 cujo título é Dottore, publicado em 2023. 

Tais métodos revolucionários embeberam todas as camadas da educação ocidental, inclusive a educação médica, de tal modo que ao longo da segunda metade do século XX a medicina foi anabolizada pelas ciências exatas e por determinismos amostrais — um tipo de behavorismo numérico – defendidos por inúmeros “psicólogos dispostos a modelar condutas” (vide Paul Meehl). Nesta toada, à medida que os médicos eram fabricados e treinados como mão-de-obra social, os números substituíam as escrituras ao mesmo tempo em que a marca da caridade cristã, que no século IV surpreendeu o romano Pacômio, deu lugar a um novo credo: o humanismo.

Religião Humanista

Aproveitando-se do vácuo religioso, os engenheiros sociais do ocidente, detentores da férula cientificitas, estabeleceram uma revolução psicopedagógica em todos os estratos educacionais. Iniciava-se assim uma nova religião: a Religião Humanista. Aos poucos, o o humanismo deixou de ser uma unidade em Cristo, tal qual proclamada pela Igreja, e passou a ser um culto ao homem e, no caso do positivista August Comte, um culto à ciência. 

Chesterton, ao comentar sobre São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino, tece uma precisa comparação entre o humanismo verdadeiro e o humanismo progressista:

“Esses santos foram, no sentido mais exato do termo, humanistas; porque insistiam na imensa importância do ser humano no esquema teológico geral das coisas. Mas não eram humanistas marchando pela estrada do progresso, que leva ao modernismo e ao ceticismo geral (…)”

Desta forma, a nova religião humanista passaria a enredar os cursos de medicina ombreando o evidencismo-tecnicista,  e ambos dispostos a reduzir a educação médica a um instrumento de “transformação social”, tal qual proposto pelo comunista Juan Pablo Garcia em seu livro A Educação Médica na América Latina

No frigir dos ovos, o discurso humanista moderno surge como um tapete que esconde interesses funestos. O credo que os move é o credo da ciência; o credo materialista; o credo onde ninguém é “um”, mas “nós” e essa massa amorfa de “nós” não precisa de um Deus antiquado e mitológico, mas de ideólogos dispostos a conduzir a sociedade para o Paraíso na Terra. 

Sinopse histórica: escolástica e humanismo

No Renascimento, época em que ciência e magia eram irmãs dispostas a combater a “escolástica medieval”, o termo studia humanitatis surgiu na Itália como uma resposta à escolástica, vista por alguns como um estudo excessivamente focado no formalismo e na lógica. 

A escolástica, principal movimento intelectual da Idade Média, pode ser dividida em três grandes fases. No período inicial, entre os séculos IX e XII, tinha forte influência de Platão e de Santo Agostinho. Autores como Anselmo de Cantuária e Pedro Abelardo buscavam estruturar a teologia usando a lógica.

No século XIII ocorre a chamada alta escolástica, momento de maior esplendor, marcado pela difusão das obras de Aristóteles, o pai do método científico, e pela consolidação das universidades, criação da então Igreja Católica. Nesse período surgem grandes sínteses filosófico-teológicas, como a de São Tomás de Aquino, que procurou articular de maneira harmoniosa a fé cristã e a filosofia aristotélica. A escolástica torna-se, então, uma verdadeira ciência do pensamento, unindo física e metafísica à teologia cristã. 

Já entre os séculos XIV e XV a escolástica entra em declínio. A ênfase desloca-se para disputas lógicas, muitas vezes desligadas da realidade e da experiência. A “razão dialética” começa se fechar numa espécie de “razão analítica”. O nominalismo de Guilherme de Ockham é um exemplo dessa fase, que passa a ser vista pelos humanistas renascentistas como estéril e árida, contrastando com o novo espírito de retorno às fontes clássicas e de valorização da observação como defendido pelos studia humanitatis.

Apesar de paradoxal, foi justamente o nominalismo que pavimentou a estrada do que se seguiria: o relativismo e ceticismo, ambos a separar da fé a razão, dispostos a olhar de lupa a realidade material e vendar-se para tudo o mais que não pudesse ser reduzido à abstrações numéricas.  Foi assim que a ciência moderna nasceu irmanada na magia; na alquimia; na astronomia e astrologia. Foi assim que os números reocuparam o lugar divino no velho estilo pitagórico, para quem os números eram a essência do universo e que a matemática sagrada poderia ser a chave para compreender a ordem cósmica.

Talvez você acredite que estou apenas dando minha opinião. No Brasil é muito comum confundirem a apresentação de dados com torcida.

A Religião Humanista

Se apliquei o termo “religião” à onda humanista do século XX não o fiz como figura de linguagem, mas por respeito aos criadores deste discurso que confessadamente a reconhecem como tal. O studitas humanitatis do renascimento tornar-se-ia, no século XIX, a Religião da Humanidade nas ideias de August Comte e na década de 1930 veria ser criado o primeiro Manifesto Humanista. 

O site da Associação Humanista Americana revela sua sanha ao mesmo tempo religiosa e ateística (vide os Manifestos Humanistas no site https://americanhumanist-org.translate.goog/what-is-humanism/manifesto1/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc ) – print abaixo.

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Religiões usualmente requerem cultos. Na religião humanista o culto ao coletivo “humanidade” exigiu o sacrifício do indivíduo de forma que a despersonalização das consciências individuais desse lugar à famigerada “consciência coletiva”. 

A educação médica, então, foi sendo cortada, por um lado, pelas lâminas do cientificismo epidemiologista, onde amostras e números deveriam ditar nossa conduta, e, por outro lado, pelas lâminas do coletivismo-social onde supostos interesses pelo “total” devem determinar o fim dos indivíduos. Tal qual uma tesoura, as lâminas parecem opostas entre si, mas a finalidade é a mesma: ceifar!

E foi assim, ceifada de sua natureza metafísica; amputada fé e razão outrora equilibradas pela tradição hipocrática-cristã, que a educação médica do século XXI culminou na relativização da vida; na redução do humano ao corpo; no desprezo à eternidade; na defesa desavergonhada de assassinatos de bebês, agora reduzidos à “aglomerados de células”; na proposta do suicídio assistido enquanto forma de assassinar com consentimento.

“Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14:6)

A beira do leito é o ponto de contato dos pés com chão; é onde a realidade emana sinais que clamam por compreensão. É onde o sofrimento alheio nos convida a nos sacrificarmos, não por uma abstração coletiva, mas por aquela alma diante de nós. Nosso sacrifício, para ser único, deve envolver o conhecimento profundo sobre os sinais e sintomas das doenças bem como a busca sincera da verdade.

Esta verdade é, em última e primeira instância, a Verdade da Vida.

📣 Em resumo:

O humanismo verdadeiro, enraizado na tradição cristã e na escolástica, foi sendo lentamente substituído por um humanismo de fachada — uma religião secular que mascara interesses ideológicos. Na medicina, isso se traduziu na perda da beira do leito, na idolatria do número e no esvaziamento da verdade. A educação médica, assim, já não forma médicos capazes de pensar, mas repetidores de discursos prontos.

O Curso Online de Raciocínio Clínico (CORC) nasceu como resposta a esse cenário. Nele, cada caso clínico é vivido em tempo real, sempre com a verdade como horizonte. Não se trata de slogans ou simulacros, mas de raciocínio, prudência e presença diante do paciente.

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