No fundo do poço tem um alçapão...

Em 2020, o dono de um cursinho especializado no pré-vestibular para medicina e que também foi meu professor há mais de 20 anos, testemunhou-me um fato temerário. Papeávamos sobre as causas da destruição dos cursos de medicina e, em meio a tantas, uma me escapava aos olhos.

“Carlos, o nível de cobrança do vestibular está ridículo. Caiu muito. Ao longo dos últimos 15 anos, o vestibular deixou de ser um filtro para cursar medicina. Alunos limitados para desenvolver um raciocínio simples e apreender conceitos básicos estão entrando nas faculdades. Não é um problema exclusivo dos cursos mais novos e caros, mas comum a qualquer faculdade. Escute o que estou te falando: a situação vai piorar…”

Atualmente, muito se fala sobre o número de cursos de medicina que abrem sem nenhum tipo de critério, como se este fosse o maior dos problemas. Em verdade, ele é um galão de querosene jogado num prédio já em chamas!

Para enxergar o panorama completo precisaríamos recuar não apenas uma década, mas séculos — e isso não consigo fazer neste breve texto e para o qual dirijo o leitor mais curioso ao meu livro O Despertar do Tempo para a Eternidade, especialmente aos capítulos 2 e 10 do referido livro. Seja como for, posso lhe assegurar que tudo é parte de um plano maior, digno do chorume dos “teóricos das cuinssidências”, do qual a UNESCO é parte do processo. Para um curioso e apressado, remeto a leitura do livro do francês Pascal Bernadin, Maquiável Pedagogo, livro documental com menos de 150 páginas.

Voltando ao prédio em chamas, refiro-me à reformulação curricular que os cursos de medicina, a partir dos anos 2000, sofreram (vide Diretrizes Curriculares Nacionais de 2001 e de 2014). O egresso de medicina previsto pela DCN de 2014 está mais para um sanitarista ou um membro de ministério do que para um médico. Vejamos o que consta no artigo terceiro do capítulo I (Das Diretrizes) do DCN:

“Art. 3º: O graduado em Medicina terá formação geral, humanista, crítica, reflexiva e ética, com capacidade para atuar nos diferentes níveis de atenção do processo saúde-doença, com ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação da saúde, nos âmbitos individual e coletivo, com responsabilidade social e compromisso com a defesa da cidadania e da dignidade humana, objetivando-se como promotor da saúde integral do ser humano”.

Analisemos alguns pontos deste artigo:

  • São 69 palavras no total com a palavra “doença” aparecendo uma única vez, representando aproximadamente 1% da frase.

  • A palavra paciente simplesmente não aparece de maneira explícita, estando sempre pedindo licença para o cidadão. Confundir paciente com cidadão é confundir pessoa com CPF.

  • O texto valoriza fortemente os princípios da atenção integral à saúde, mas evita deliberadamente termos biomédicos clássicos como “diagnóstico”, “tratamento” ou “doença” em sentido técnico.

  • A expressão “recuperação e reabilitação da saúde” implica atividades terapêuticas, mas de forma genérica e sistêmica, evitando um apelo técnico-clínico.

  • Há uma ênfase sociopolítica e coletiva na formação, com foco na “responsabilidade social e compromisso com a defesa da cidadania” e na “promoção, prevenção, recuperação e reabilitação (…) no âmbito individual e coletivo”. É evidente a desconstrução do cuidado individual, de maneira que um cuidado coletivo passa, na melhor das interpretações, a ocupar relevância similar à de uma pessoa em sua unicidade.

As chamas que queimam os prédios de medicina foram acesas pela Iskra (Faísca, em russo, e título de uma das obras de Lênin) com a ideia de “transformação social”, defendida e almejada por Juan Pablo García, autor do livro A Educação Médica na América Latina e venerado por muitos profissionais das cadeiras de saúde coletiva. É bom lembrar que este livro – acessível gratuitamente na internet – data das décadas de 60/70 e foi reeditado em 2022 pela Universidade Federal da Bahia, talvez para reacender eventuais chamas que vinham se apagando.

A ampliação dos cursos de medicina da maneira que temos visto é apenas parte das estratégias – perpetradas pelos mesmos estrategistas – para criar um exército — não de médicos, mas de células políticas — tão incapazes de diagnosticar e tratar indivíduos quanto prontas a seguir bovinamente determinações governamentais.

O dono do cursinho que me alertou sobre o perfil do “ingresso” na faculdade de medicina mostrou como este calouro se adequa ao perfil de aluno útil ao sistema educacional “transformador”: despersonalizado, astênico o suficiente para não ser protagonista da própria vida. Este “ingresso”, entupido de uma educação básica “sócio-construtivista”, invejável até mesmo para Vygotsky, encontra na esteira seguinte da fabricação taylorista uma grade curricular disposta a apertar os parafusos desta “construção”.

No fim ele deve ser “reflexivo e crítico” a tudo e a todos — exceto ao próprio conteúdo “social-coletivista” ao qual ele foi adestrado – se não quiser sofrer ameaças que variam desde “placas de repúdio” e “dificuldades em realizar estágios extra-curriculares” à condições mais graves.

Realmente, ajustar as arestas das faculdades de medicina começa não apenas limitando o número de cursos ou melhorando o filtro de entrada, mas literalmente fugindo do conteúdo programático da maioria deles e buscando, por meios próprios, colegas, amigos e familiares despertos para o câncer que corrói a educação médica atual. O problema, de fato, é multifatorial e esses fatores não acasos, mas partes de um mesmo processo patológico único que visa formar mais feldshers do que médicos propriamente ditos.

Se muitos achavam que o fundo do poço era a quantidade de faculdade, descobriu que lá há um alçapão. A quantidade de faculdade permitiu o fim da exigência do vestibular, espanou qualquer singelo ideal de vocação pela janela das faculdades e amplificou a capacidade das Diretrizes Curriculares adestrarem uma massa de acadêmicos já despersonalizados pelo Emburrecimento Programado tal qual denunciado no livro de J. Taylor.

O tema provocado aqui é mais detalhado no já citado livro O Despertar e no livro que em breve lançarei: A Filosofia por trás do diagnóstico, um resgate da fé e da experiência.